terça-feira, 29 de setembro de 2009

maria da academia

enquanto poeiras juntam-se no chão
ela varre e sorri.
sua cabeça, longe dali
frequenta um habitual futuro
onde pode encontrar dias mais simples.

quase invisível,
já conhece sua não presença
e acostuma o coração a não atenção.
desentende a relação com o espelho
e o que tentam encontrar,
ao tanto olhar,
a própria imagem refletida.

ao caminhar, voa longe.
liga lugares distintos e,
finalmente,
quase pode abraçar os seus.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

que beleza

(hoje um post diferente)

Há alguns meses atrás bati o carro e tive a oportunidade de passar quase 30 dias andando de ônibus ou a pé mesmo entre as minhas rotas diárias.

Nas principais paradas de ônibus que passava, tinham bancas de jornais. Durante o tempo que ficava a aguardar os ônibus, pude perceber a quantidade de revistas totalmente focadas em beleza, com força para os assuntos "perder peso" e "cabelos". Fiquei impressionado com o tamanho desse mercado e com a bitolação da população para assuntos tão, tão, tão, tão nada.

Indaguei-me sobre alguns pontos específicos:

- Será que os responsáveis pelo conteúdo tem um mínimo de responsabilidade e a real noção da imposição estética que empurram goela abaixo dos leitores? Será que levantam a possibilidade de, oferecendo sempre uma nova "fórmula mágica", estarem alimentando o sofrimento, a insegurança e a cobrança de alguém que, cada vez mais, sente-se "fora dos padrões"? Será que, entendendo a importância de um meio de comunicação para o povo, conseguem dormir em paz veiculando falsas soluções para esse (ser gordo) que é quase um crime hoje em dia (e isso nada tem a ver com saúde... é sempre cobrado como uma questão puramente estética)? Será que atores, atrizes, modelos e etc não se preocupam em ser a imagem disso tudo?

Tirei algumas fotos de capas de revistas:


1) Numa boa, olhem a cor desse chá. Isso pode ser bom pra alguma coisa? Certamente se tomar esse chá (e também não comer mais nada) vai emagrecer rapidinho...
2) Aí você toma esse chá e ainda ganha R$500! Devia ganhar muito mais pela cagada que está fazendo com o corpo.
3) "Meus 7 segredos: como deixei de ser feia e deprê e me tornei poderosa". Já reparou que tem sempre uma quantidade específica de "fórmulas mágicas"? Isso deve dar mais credibilidade a tanta babaquice junta.
4) Sem querer acabei pegando uma parte de outra revista na foto. Poderia ter saído qualquer assunto, mas acho que as estatísticas sobre manchetes explicam. "Gisele Bunchen revela seus segredos de beleza". Vai gastar um dinheiro na revista, vai passar a fazer como a Gisele e vai continuar acordando do mesmo jeito: como é realmente. Isso sim é belo.


1) "Cabelos. Cortes e penteados das famosas. É pra cortar e arrepiar". Essa última frase chega a dar calafrio, não é?
2) "Dieta da idade. -2kg por semana". Se uma pessoa de 70 kg fizer essa dieta por 36 semanas deixa de existir... vai morrer! Não pode ser bom.
2) "Controle já a pressão e emagreça!" Sem sacanagem, é ler uma chamada dessa e a pressão subir rapidamente.
4) "Transformação de leitora" (Maria será Maya). "UAU (?!). Você pode ser a próxima! Faça seu cabelo crescer mais rápido". Tem sempre alguém achando que essa tal natureza é ineficiente, ne? Daqui há uns anos teremos um botão que será só apertar pra crescer cabelo... problema é onde vai ficar o botão.


1) Essa foto é um retrato dessa babaquice toda: 7 chamadas sobre peso ou cabelo!
2) "A fruta que acaba com o inchaço!" hahahaha tá de sacanagem. Na revista da próxima semana vão descobrir que é outra fruta.
3) "Cabelos. 42 soluções para fios armados, secos, alisados e tingidos." E pra fio de telefone? Engraçado que são 42 soluções. Nem 41, nem 43. 42!
4) "Dieta. Farinha de Laranja e Maracujá. -2kg a partir de hoje." Alguém consegue emagrecer comendo farinha, maluco? Deve haver alguma mensagem subliminar com esse lance de -2kg.
5) "Perdi 23kg com a dieta da segunda-feira". Na boa, que porra é essa? De onde surge tanta gente perdendo peso assim? Nego deve pegar esses depoimentos em hospital...
6) "Virei modelo aos 50 anos". hahahahahahahaha essa merece um foooooda-se!
7) "Transforme seu cabelo em casa. 22 segredos para alisar, amaciar..." Nem 21, nem 23. 22! E toma alisamento... daqui há um tempo vai ser um bando de playmobil andando pela cidade... todo mundo igual de cabelo liso.
8) "Turbine a dieta com chá indiano. Chai, a bebida da novela. É uma delícia! Acelera a digestão, aumenta seu pique e melhora a circulação." Ahhhhhh essa é a melhor (ou pior). Nego perdeu a noção da sacanagem. Entra a novela da Índia, faz um sucesso da porra, é todo mundo querendo ser igual Maya. Porque não entrar na onda e arrumar um chazinho sem vergonha e vesti-lo como a solução do mundo? E como se não bastasse, o "Chai" (hahahaha quem deu o nome desse chá?) ainda é uma delícia!

Por essas e outras que vivo a parafrasear Caito Mainier: esse mundo ta todo fodido, cara.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

imoral

queria tanto saber
porque seguro
em minhas mãos um bem que não é meu?

quem me dirá se lá do alto,
no céu,
o mau não seja tão escuro assim?

sei la...
sei la...

da vida tenho o mel e tenho o travo,
no lago dos meus olhos, em cometas,
nos meus beijos pagãos.
trago
no peito o coração dos bravos
boêmios, vagabundos e poetas.


em um lugar de vaidades
e dois lados
sou mais um mau, mais um pecador.
com que moral o bem se veste assim,
e encurta o horizonte?

prefiro um caminho dito imoral e tenho mais de mim,
muito mais de mim...

da vida tenho o mel e tenho o travo,
no lago dos meu olhos, em cometas,
nos meus beijos pagãos.
trago
no peito o coração dos bravos
boêmios, vagabundos e poetas...

transgredindo o não
criando um novo sim...



inspirado no livro "A alma imoral", de Nilton Bonder

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

livre

no gostar
não há de se fechar.
há, sim, de se abrir
para experimentar
novas formas de gostar.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

equilíbrio

São muitos os impulsos humanos que tem suficiente unidade para que, na linguagem corrente, se ache um nome para eles. Palavras como ódio, amor, amizade, cólera, fidelidade, apego, desconfiança, confiança, entre outras, designam estados que indicam uma disposição para comportamentos determinados, de modo não diverso de como o fazem igualmente as expressões cunhadas pela pesquisa científica do comportamento, como agressividade, tendência para hierarquia, territorialidade, etc.

A cada uma dessas designações para estados de “alma” e/ou disposição para certas ações corresponde um sistema real de estímulos no qual, a um primeiro contato, não é necessário estabelecer a proporção do que é geneticamente determinado ou culturalmente adquirido. Podemos admitir que cada um desses impulsos é membro de um sistema que trabalha de forma ordenada e harmoniosamente e, como tal, é indispensável a vida humana.

A tentativa de se classificar ódio, amor, fidelidade, desconfiança, etc., em sentimentos “bons” ou “maus” é nonsense, quando se sabe que eles são componentes de um sistema que funciona como um todo, e é tão tola como se perguntar, por exemplo, se a tiróide é boa ou má, em função de sua importância hormonal no metabolismo do corpo humano.

A atual concepção de que podemos dividir tais noções em boas e más, de que amor, fidelidade e confiança são em si bons, e ódio, infidelidade e desconfiança são em si maus, acontece unicamente porque, geralmente, em nossa sociedade, há falta dos primeiros e excessos dos segundos. Amor demais estraga inúmeras crianças cheias de esperanças.

O equilíbrio é fundamental em tudo, e há de se questionar os estigmas que envolvem as situações, sentimentos, emoções, etc., que possuem pré-conceitos ruins. Há também de parar de se evitar o mau, já que faz toda a diferença encará-lo como complemento ao bom, e não como seu oposto.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

teatro dos vampiros - parte 2

(continuação do post anterior...)

O mundo dos jornalistas é possuidor de conflitos, concorrências, hostilidades. Diz-se sempre, em nome do “credo liberal”, que o monopólio uniformiza e a concorrência diversifica. Nada contra a concorrência, mas, quando ela se exerce entre jornalistas ou jornais que estão sujeitos às mesmas restrições, pesquisas de opinião e anunciantes, ela homogeneiza. Da mesma maneira, nos jornais televisivos ou radiofônicos das emissoras de grande difusão, no melhor dos casos, ou no pior, só a ordem das informações muda. Ocorre também uma espécie de interleitura comprovada: para fazer o jornal televisivo do meio-dia, é preciso ter visto as manchetes do 20 horas da véspera e os jornais da manhã.

A televisão não é muito propícia a expressão do pensamento. Um dos maiores problemas levantados por este meio é a questão das relações entre o pensamento e a velocidade. Pode-se pensar com velocidade? Será que a televisão, ao dar a palavra a pensadores que supostamente pensam em velocidade acelerada, não está condenada a ter e criar apenas fast-thinkers?

Com sua urgência, a televisão produz fast-food cultural, “idéias feitas”, aceitas por todo mundo, banais, convencionais; mas também são idéias que quando as aceitamos, já estão aceitas, fazendo com que não haja problemas na recepção. Para que haja pensamento, o tempo é necessário para que se “fragmente” as idéias.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

teatro dos vampiros - parte 1

Porquê nas condições habituais aceita-se, apesar de tudo, participar de programas de televisão? É uma pergunta muito importante e, no entanto, a maior parte dos pesquisadores, dos cientistas, dos escritores, para não falar dos jornalistas, não faz a si mesma. É necessário que haja essa “interrogação” sobre o que dizer, a quem dizer e para que o fazer. A impressão que essas pessoas passam é que, ao aceitar participar sem se preocupar em saber se poderá dizer alguma coisa, revela-se muito claramente que não se está ali para dizer alguma coisa, mas por outras razões, sobretudo para se fazer ver e ser visto. Foi assim que a televisão se tornou hoje um lugar de exibição narcísica.

Análisando a televisão em si, o acesso a esta tem como contrapartida uma formidável censura, uma perda de autonomia ligada, entre outras coisas, ao fato de que o assunto é imposto, de que as condições da comunicação são impostas e, principalmente, que a limitação do tempo impõe ao discurso tantas restrições que é pouco provável que alguma coisa possa ser dita.

Além disso, há intervenções políticas e censuras econômicas, já que muitas emissoras pertencem a grandes grupos de empresas ou até mesmo não afetariam a reputação de seus patrocinadores, e isso afeta toda a programação quanto aos jornalistas – figuras importantes nesta análise e donos de certa manipulação, até porquê também são manipulados e, muitas vezes, alimentados por suas ambições ou temerosos de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, não tem consciência disso.

A busca pela notícia, o princípio da seleção é encontrar o sensacional, o espetacular. A televisão convida à dramatização, no duplo sentido: põe em cena, em imagens, um acontecimento e exagera-lhe a importância, a gravidade e o caráter dramático, trágico. As palavras comuns, não se “faz cair o queixo do burguês” e do povo. As notícias de variedades são o alimento predileto da imprensa sensacionalista; o sangue e sexo, o drama e o crime sempre fizeram vender e alçam o índice de audiência. É importante citar também os “fatos-ônibus”, que não devem chocar ninguém, não envolvem disputa, não dividem, formam consenso, interessam a todo mundo mas, de certo modo, não tocam em nada de importante.

Continua...